segunda-feira, 27 de março de 2017

Ao público leitor: TECIDO DO CORAÇÃO








 TECIDO DO CORAÇÃO” é um livro em homenagem ao AMOR, esse sentimento que comanda a vida humana e desperta, em nós, os mais diferentes humores, tais como alegria, entusiasmo, melancolia, nostalgia, tristeza, esperança, fé, confiança, inquietação, paz, dor da partida, da saudade, do silêncio, da noite, do fogo, do vulcão, da solidão. É um livro que fala diretamente ao coração de homens e mulheres. É, ainda, um livro que interroga a vida, bem como a forma que, por vezes, as pessoas têm que remar contra ventos e marés para poderem por de pé um projeto de vida.
É uma obra iniciada antes mesmo de ser escrita, pois teve seu começo quando aprendi a olhar e a sentir o mundo, sempre com a alma despida de outros sentimentos que não fosse o amor, a coragem, determinação, fé. Aqui, há olhares, saudades, trocas de beijos e afagos, encontros, despedidas, reencontros, sonhos, desejos, enfim, a sensibilidade que povoa uma alma que sente os sentimentos do mundo.
Engana-se quem pensar, aqui, descortinar um retrato autobiográfico. Ao contrário, os sentimentos descritos habitam as almas humanas e revelam que o amor, para surgir, não  necessita de cenários espetaculares ou qualquer outra coisa, mas de uma perfeita oportunidade de sentir. E, ao final, indaga-se: há algo melhor do que a poesia para ser representante do amor, com todas as suas nuances?! Leia a obra, aprecie os poemas, e realize sua viagem em direção ao coração.
Como todo livro de poesia, este, definitivamente, também vem embriagado de sensibilidade e profundidade, com experiências de amar, grandeza interior e pureza d’alma. É, então, um livro para ser lido e relido naqueles dias em que nosso coração dolorido pede um pouco de poesia para acalentar a alma.
Saudações, leitores!
Luísa Karlberg
                Autora


A OBRA POÉTICA “TECIDO DO CORAÇÃO”, DE LUISA KARBERG






A leitura serena de ‘Tecido do Coração’ permitirá ao leitor crítico uma infinidade de inferências. A principal delas, que aprecio, é a íntima relação de caráter existente entre a história de vida da autora e a poesia que nos trouxe a lume. Aqui, a poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão.
Com essa obra poética Luísa Galvão Lessa Karlberg vai dar ao mundo - Tecido do Coração - um singularíssimo livro de poemas, em um lugar onde a poesia normalmente não passa da folha onde foi esboçada, nem seus autores ultrapassam o limite da fronteira municipal. Essa poesia, eu creio, vai ganhar mundo, povoar mentes e corações, semear lições a dizer que a vida é bela quando não se tem medo dela. É como diz Fernando Pessoa: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”, assim sente a autora.
Ainda, diz um adágio que ‘o meio faz o homem’, mas neste caso, foi a inquietude intelectual de uma jovem ribeirinha que triunfou sobre o seu meio hostil, fazendo-a superar limitações, geográficas, financeiras e culturais, para urdir uma vitoriosa história pessoal de vida, aqui expressa, em livro nascido do cultivo humano à herança cultural da poesia.
Sendo menina nascida às margens barrentas do Igarapé Humaitá, Seringal São Luís - localizado às cabeceiras do Rio Muru, distante de Tarauacá oito dias de barco, diria o vulgo tratar-se de mais uma história de personagem comum, sem sonhos ou promessa de expressão. Mas, para o orgulho dos familiares, da sua localidade e de uma plêiade de admiradores, com o mesmo esforço que um dia despendeu para matar a fome alcançando os frutos no alto das árvores gigantes da Amazônia, o poder da vontade de uma acreana idealista deu a Tarauacá, ao Brasil, e ao mundo o que a localidade, a política ou governo algum pode “crear” - o caráter fértil de uma das suas filhas mais veneráveis. Nascida à beira d’água, Luísa Galvão Lessa Karlberg não quis pescar peixes, mas ler muitos livros, cruzar o mundo, conquistar títulos. Assim, respeitada e realizada, intelectualmente, nossa doutora é advogada e Professora Universitária; autora de incontável número de publicações importantes que enriqueceram o mundo científico, acadêmico e a Literatura local; possui doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; pós-doutorado em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal, Canadá; assento na Academia Brasileira de Filologia e Academia Acreana de Letras.
Também, não foi por acaso que recebeu convite estadunidense para integrar o quadro de Membros da International Writers end Artists Association - IWA e ser Confreira de Eduardo Galeano (Uruguai); Toni Morrison (Prêmio Nobel de Literatura - USA); Fernando Henrique Cardoso (Presidente do Brasil, 1994 - 2002); Príncipe Dom Duarte Nuno João Pio de Orleans e Bragança (Portugal) e mais uma infinidade de Artistas consagrados, colecionadores de Arte e Escritores notáveis, espalhados por mais de uma centena de países onde a IWA tem seu espectro. É fato que, por aqui, jamais se imaginou que uma acreana pudesse ostentar a dignidade de localizar o Acre no centro da Cultura mundial. Lessa é a primeira mulher da Amazônia a nos orgulhar com a envergadura de tão alto diploma vitalício, que lhe confere direito de indicar, votar e ser votada para os prêmios da Academia Sueca - Nobel e Literatura e Prêmio Internacional de Ativista da Fundação Gleitsman. O convite selado veio da parte da Condessa di Santa Sofia de Heristal - a Senadora e Embaixadora at Large do Parlamento Mundial para Assuntos de Segurança e Paz e Membro Perene do Conselho de Negócios da ONU, a Presidente de Honra da IWA Terezinka Pereira.
De tempo em tempo, na história da humanidade, chegam determinados momentos históricos em que a “filosofia vigente” não consegue mais responder às indagações e inquietações de uma determinada sociedade. Quando isso ocorre, a filosofia superada é suplantada por uma “nova filosofia emergente”, que pode ser até antagônica à filosofia dominante que lhe antecedeu. Estamos passando, agora, no Brasil, por um momento destes, com sintomas manifestos de desorientação moral, desmoralização institucional, confusão intelectual, oportunismo financeiro e apatia cultural que se estende da beira-mar à Amazônia - local onde as tabocas, os cipós e os galhos secos impedem a visão das árvores. 
É justamente nesta “hora sexta” que vem a lume ‘Tecido do Coração’, criação literária genuína, colhida na experiência de uma vida dedicada à educação de gerações. Sabedoria humana adquirida nos livros e no nobre ofício de Professora - uma voz ligada ao povo, sem os rigores dos que manejam o estilo. No conteúdo extemporâneo e universal da obra, a autora manifesta a intenção poética de oportunizar a serena reflexão a respeito dos temas existenciais humanos, como o amor, a morte, a felicidade, a tristeza, o lamento e as consequências das contradições humanas, traduzidas pelo: 
“... martelo de Deus a [nos] bater nos dedos...” (p. 23).
Tratar-se de uma publicação necessária à realização pessoal da autora que materializa sua verve poética na criação livre, elegendo o amor como abordagem temática principal. E cumpre este mister declinando das  ferramentas e recursos comuns à poesia, a exemplo da rima obrigatória e do metro. Com liberdade, competência e apurado senso estético, elege, em segundo plano, a prosa poética - estilo literário que apareceu como tendência marcante nas publicações acreanas a partir da última década - como digna de também figurar no seu livro de poemas:
“... Eu não quero roer caroços, eles estragam os dentes. Prefiro a polpa doce e macia das atas e frutas de conde. Essas são as minhas preferidas. Eu já não tenho paciência para lidar com mediocridades. Tornei-me uma pessoa exigente. Não quero estar em lugares onde desfilam vaidades. Eu prefiro as pessoas simples, inteligentes, que têm assunto e tutano na cabeça. Aborrece-me pessoas invejosas que tentam destruir quem elas admiram, cobiçando seus feitos, talento e sabedoria. Eu não suporto conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias, sobre as quais eu nem quero saber. [...] Embora seja uma mulher das Letras, já não tenho tempo para debater vírgulas...”. (Quando Já Se Viveu 60 Anos, p. 99).
A persona do amor, mulher que nunca é neutra, também figura na manifestação de personagens multifacetários - inclusive em Francês - que registram seus dramas (e tragédias) nas histórias de “doçura do mel”... ou desiludidas... São rostos desnudos de amantes que, em representação literária, sob o céu amazônico, expressam o anseio humano comum de encontrar o: “Amor Maior do Mundo”, “Amor Invisível”, “Amor Antigo” “Amor Atrevido” e outras infinitas formas de amor (ou de amar?) consoantes no livro.
O poema que praticamente abre o livro é “Bênção do Amor”. Um poemeto escrito em oito versos, sendo o “verso de prata” uma “redondilha maior”, o texto foi concebido para dar ao leitor o máximo de poesia em um mínimo de palavras: “...Refúgio das horas tristes, acolhe-me./Dá-me a bênção da poesia inatingível/E por isso, talvez a mais preciosa”. (p. 15).  O que mais me chamou à atenção em “Bênção” foi a simplicidade  invocatória e impressão de facilidade com que foi produzido, além da semelhança ocasional que guarda com os famosos versos de Goethe: “Oh Musas inefáveis,/ Oh formidável engenho Divino,/ Inspirai-me para que meu estilo/ Não desdiga da natureza do assunto.”
Do conjunto da obra, vou destacar aqui um recorte do poema monostrófico “Quem eu sou”, como mostra do vocabulário apurado e fluência de expressão da autora e, especialmente, pela demonstração de incrível capacidade de definição de um ser humano por si mesmo: “Eu sou a brisa que abranda os arredores,/ Eu sou a dança de salão elegante,/ Eu sou a cor que colore a vida [...] Eu sou a história minha,/ Eu sou pura como a flor,/ Eu sou doce como mel,/ Eu sou um pote de água,/ Eu sou nascente rumo ao poente” (p. 108).
Mais adiante, em “Você é assim”, diz: “Você é os brinquedos que brincou, As palavras que usou, O segredos que guardou, A criança que Deus criou”. Em ” AVESSOS DA VIDA” (p.111), percebe-se a determinação que move a sua poesia, o olhar sobre a vida, a maturidade, a grandeza humana, a serenidade da mulher corajosa, sem medo de usar palavras, em sentidos e figurações exatas na dimensão da vida: “Na vida já provei muitos dissabores, De risos zombadores,inveja, depreciação,Sobre as opiniões que tenho comigo”. Depois, em “Destino” (p.113), assegura: “O nosso corpo abriga uma alma, que é joia preciosa. Essa alma tem forças para vencer adversidades, que são como nuvens. Para vencê-las é suficiente manter a visão fixa no sol, seguir firme no ideal de sonhos, projetos e perspectivas”.      
Percebem-se, nas poesias, que as palavras não são traduções de um sentido mudo, mas criação aguçada de múltiplos sentidos. Aqui, a  linguagem não veste ideias, ao contrário, encarna significações, estabelece a significação entre a poesia e o mundo, sedimentando os significados que constituem uma cultura de sentir, pulsar, viver. A linguagem não é mais a seiva das significações, mas o próprio ato de significar, assim, a escritora, igualmente o ser falante, não pode governá-la voluntariamente, pois ela se faz sentir, vibrar, dizer, traduzir, significar, reinterpretar, contar, poetar, ao escrever: “Eu posso ser... A tinta da aquarela, A moça da janela, Que olha a passarela (EU POSSO SER A MOÇA DA JANELA, p. 114).
Por isso tudo, a obra literária não é um sistema fechado, ou seja, acabado e equilibradamente estruturado. Acredita-se que toda obra literária pode ser interpretada de diferentes maneiras, sem que isso comprometa a sua configuração original. Cada vez que o leitor toma contato com um poema, neste “Tecido do Coração”, acaba por reinventá-lo, na medida em que o reinterpreta segundo as suas representações psíquicas.
Aqui, igualmente Neruda, a autora apresenta a sua visão do mundo e da vida. Canta o amor, a esperança, a dor, o sofrimento, a justiça. Fala do rio, do luar, da noite, da chuva, do sol, das estrelas, como bálsamos e respostas para corações feridos. Privilegia, por outro lado, os contatos humanos,quando diz em “Meu Feitio”(p.116): Eu sou mulher campesina, da beira do rio, Faço da vida um poema macio, Pleno de tesouros e  encantos, Que escondem imensos acalantos”. Acredita não haver poesia sem o coração palpitar e  destaca, ainda, que a sociedade humana e seu destino são matéria sagrada e obrigação original para o poeta, quando fala do “Tempo na vida da gente” (p.119): Eu vejo o tempo passar ligeiro. Quando me apercebo já foi o ontem, estou no amanhã que se finda. Daí vem a pergunta: quanto tempo a gente perde nesta vida com bobagens e detalhes existenciais. Se fossemos somar os minutos jogados fora, notaríamos que perdemos anos inteiros”.

Vê-se, então, que as palavras não são traduções de um sentido mudo, elas são a criação de muitos sentidos. A linguagem de ‘Tecido do Coração’ não veste ideias, ao contrário, encarna significações, estabelece a significação entre o eu e o mundo, sedimentando os significados que constituem uma cultura, uma vida, um amor, uma saudade, um sentimento humano singelo. A linguagem não é mais a seiva das significações, mas o próprio ato de significar, assim, a escritora, tal qual um ser falante, não pode governá-la voluntariamente, deixa vazar a emoção “Caminhei pelo mundo, Andei, naveguei, mergulhei, Mais tarde aqui despertei, Não sei, não lembro aonde cheguei… Só sei que caminhei à procura De alguém, um lugar seguro, Um coração valente, maduro… (Caminhante da Vida, p.31).

Admiro, sinceramente, a autora quando ela escreve prosa ou poesia, assim como textos acadêmicos, pois sou um apreciador contumaz da sua prosa nos Jornais.  Já cheguei a declarar que a admiro literariamente, até a inveja, pelo realismo que empresta aos seus textos de criação original e pela competência de sua expressão linguística. Os mais achegados à Professora sabem da destreza com que desenvolve seus temas, sempre voltados ao ideal de fazer chegar a Justiça até aos mais humildes.
Ademais, Luísa Galvão Lessa Karlberg é uma boa amiga, boa filha e cidadã simples. Somos confrades e compartilhamos diversos sonhos. Deve ser por isso que me elegeu, imerecidamente, para degustar o primeiro cálix do vinho poético do sucesso do seu livro de poesias. Poesia/Pedra capaz de nos humanizar por fricção para nos tornar melhores a cada dia, além de produzir um efeito analgésico sobre a rebocadura das circunstâncias alucinantes da vida moderna: na pressa do trânsito que atrasa à chegada ao trabalho - porque a poesia serve de impenetrável escudo psicológico ao autor, seus leitores e demais sofredores inveterados... conforme registrou Graciliano Ramos em “comentários” a respeito de Memórias do Cárcere: “Se não fosse minha relação com os livros, na prisão, a exemplo de muitos companheiros meus, teria enlouquecido”.
E, esta particular insanidade é reforçada pelo dito popular, por nossas palavras: “poeta e louco são nomes sinônimos”. O motivo, quem se atreveria a revelar sem vestir o uniforme de iconoclasta? Parece óbvio. Todo poeta experimentado que ainda escreve, nesta “Pátria das Chuteiras”, só pode haver enlouquecido, para produzir um produto que ninguém quer comprar, aqui, como alhures - o Brasil provinciano não sabe ler!  Esta pertinente queixa poética é antiga. Foi estampada por Mário de Andrade no desvairismo provinciano de Paulicéia Desvairada (primeiro livro modernista publicado no Brasil): cujas entrelinhas afirmam que são Paulo era (continuará sendo?) entorpecente...
Espera-se que o leitor reconheça e encontre neste livro as mensagens que ele transporta. E que estas lhe provoque uma insuportável vontade de voar. Espera-se, também, que este ‘Tecido do Coração’ tenha a mesma sorte da Paulicéia, por prestar-se ao mesmo propósito instigador, à reflexão, resistência e mudança, neste caso, no nosso ambiente amazônico, padrasto dos poetas que testemunham impotentes os trabalhadores locais serem ameaçados nas suas conquistas históricas de luta. Um palco de conflito travado no calor de quarenta graus, “fritando” o povo.
Que mais dizer senão advertir que este tomo vai escrito no idioma do amor - única força construtora. Que Ele, por seu mérito, renove nossa admiração pela autora, acadêmica que merece o cúmulo dos nossos encômios. E que a capacidade nobiliárquica da poesia sustente nossa esperança no porvir. Isso porque ao  escrever o ser humano se inscreve na matéria, imortalizando o seu pensar e o seu sentir. Escrever é, nesse sentido, um ato de imortalidade ao que a pessoa foi ontem,  será amanhã e é hoje. Ao escrever o seu hoje, que amanhã será passado, o poeta continuará presente. Por esse motivo, o domínio da escrita torna-se importante não somente quanto ao aspecto social ou profissional, mas principalmente quanto ao aspecto existencial.
Fait un bon voyage, ‘Tecido do Coração’!
Renã Leite Pontes
* Professor, escritor, poeta. Membro da Academia Acreana de Letras e Presidente da Academia dos Poetas do Acre.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A DOR DA PERDA AFETIVA





Nós, seres humanos, fracos ou fortes, sofremos dores de perdas durante a nossa vida e essas dores deixam marcas profundas, cicatrizes que, por vezes, nunca se fecham, sangram por toda eternidade. E isso não é uma circunstância nova, pois na  trajetória existencial esse sentimento de perda afetiva acompanha as pessoas desde tempos remotos. E, no correr do tempo, acumulamos perdas de natureza variada, que ficam gravadas na memória. Umas pessoas sofrem mais que outras. Essa dor não tem uma nota igual para todos, há quem viva na indiferença. Mas não são dessas pessoas que fazemos referências. Falamos dos seres normais, que cultivam e guardam amor, afeição, carinho e ternura.
A verdade incontestável é que nós, humanos, ainda não aprendemos a lidar com a experiência de perda afetiva e os efeitos emocionais dela decorrentes. Em cada nova experiência, a gente se depara com o impacto do momento e revive a dor sentida em situações pretéritas, embora o palco dos acontecimentos seja outro. Mas as lembranças ficam guardadas na memória e afloram em novos momentos, em situações similares.
No cenário de nossas vidas a separação e o amor continuam sendo conceitos vagos e complexos, cuja experiência deixa uma marca indelével nas mentes e corações. Não aprendemos quase nada com a dor da perda e o desafio do amor, à medida que levamos de uma vida para outra um padrão emocional-comportamental repleto de pensamentos fixos e sentimentos arraigados ao passado.
Este "estado de coisas" revela, nas entrelinhas, que nós deixamos de aprender com a experiência de sofrimento, e que devemos, portanto, nos aprofundar nesse conceito para compreender o significado do amor em nossas vidas. Significado que passa pela superação dos sentimentos de dependência, apego e posse, que interfere nas relações das pessoas com elas mesmas e com o mundo ao seu redor.
Talvez por essa complexidade de sentimentos, os gregos estudaram o amor e perceberam a sua escala evolutiva em forma de estágios. O primeiro é chamado Porneia - o amor-matéria. O segundo - o Eros,  o amor sentimental, a busca da felicidade a dois, sendo a forma de amor mais comum no atual momento evolutivo da humanidade. O terceiro estágio - Philia, o amor da maturidade e da reciprocidade. É quando não se nutre mais a ilusão que o outro pode nos preencher, pois a felicidade é uma decorrência natural de nossa completude, de nossa realização pessoal e vocacional. O quarto estágio é o Ágape -  o amor incondicional, sem escolha. É o amor divino.
Nota-se que a percepção apurada, em relação ao amor, é a peça do mecanismo que altera o estado de coisas de uma vida. E, neste sentido, a ciência está aquém das exigências de uma mente em conflito, pois o amor não depende e não se apega a situações efêmeras. Falta à ciência do comportamento humano, a sutileza e a profundidade que encontra na Filosofia e no Espiritualismo, no sentido de vincular passado e presente numa perspectiva de futuro.
Ademais, é fato que o ser humano é muito frágil diante da dor de perda. No campo afetivo esse sentimento é avassalador, deixa-nos impotentes, aturdidos na busca por respostas, quando se tem a alma dilacerada, inconsciente na incompreensão da vivência do amor, tão arraigada e profunda, nos fundamentos de nosso viver.
E toda essa dor humana, que aqui falamos, decorre da perda do Amor. E esse amor tão decantado é concebido de variadas maneiras. Aqui, toma-se o pensamento de Cardella (1994) como “um estado e um modo de ser caracterizado pela integração e diferenciação de um indivíduo, que lhe permite ver, aceitar e encontrar o outro como único, singular e semelhante na condição de humano” (p.16).
Para Zinker (2001), o amor tem significados diferentes em diversos momentos de vida de uma pessoa, porém a experiência de se apaixonar e a necessidade de fusão continuam sendo um enigma essencial que não depende das palavras. Há um reconhecimento de que não se é inteiro sem o outro, não se é pleno em si mesmo, mas também inexiste um reconhecimento do outro como pessoa inteira. Assim diz esse autor:
A união é como alquimia ao juntar as coisas e criar uma nova forma. Na alquimia, os nossos ancestrais tentavam juntar metais opostos na tentativa de fazer ouro. Isto, em certo sentido, é o que pensamos a respeito da aliança de noivado e casamento (p.198).
Assim, quando há uma quebra nessa relação de amor, por uma das partes, é provocado no outro uma dor que talvez se inscreva entre as mais difíceis de suportar – se admitirmos que podemos suportá-la enquanto seres “normais”. Vejamos o que diz Caruso (1988):
Não por acaso, em todos os mitos religiosos, o estado idealizado de dor ‘absoluta’ após a morte física do pecador é equiparado à separação absoluta do objeto amoroso. O reino das sombras – o inferno – apresenta-se como o lugar da dissociação, da ausência e da separação eterna; só os deuses e semi-deuses podem superar as leis da existência e descer a esse reino, para libertar os amantes esperançosos. Na representação cristã da condenação eterna, a própria essência dessa condenação encontra-se na dor provocada pela separação dos amantes (isto é, na separação do amor
absoluto personificado em Cristo) e no desespero daí decorrente (p. 13).
 Percebe-se, então, que a separação amorosa não é um acontecimento raro, vivido por poucos, é uma das experiências mais dolorosas na vida do ser humano. A separação, para quem vivia uma relação de amor, assemelha-se a uma mutilação. Schettini (2000) conta que a separação “é como se, perdendo o outro, ter-se-á perdido uma parte de si. Produz-se uma ‘descompensação’” (p. 44). O rompimento pode provocar sentimentos de rebeldia ou conformação, vai depender da história de vida do indivíduo e o seu condicionamento específico (CARUSO, 1988).
Compreende-se, então, que o significado do ato de perder o amor é o desaparecimento, o extravio, a desgraça, a destruição. Assim sendo, a perda é uma agressão ao senso de integridade da pessoa. Ela é um trauma que ameaça o equilíbrio total, sobretudo quando a perda é irreversível. Necessitamos, pois, de muita fé, autoconfiança, determinação, para vencer a dor da perda afetiva.
Sabemos, todavia, que sendo o amor verdadeiro é diferente da paixão, ele não se concentra em coisas fúteis e pequenas, ele se preocupa com o grande, com os sentimentos, com os benefícios que o relacionamento traz, mas o amor verdadeiro não é necessariamente eterno. Muitas vezes, um amor verdadeiro morre quando uma das partes envolvidas quebra a confiança existente. Assim é a vida, assim atua nosso coração, assim é o Amor, cruel é a perda dele.

 DICAS DE GRAMÁTICA

QUANDO USAR “TRAZ” e TRÁS, PROFESSORA?
- Trás – com “s” e acento, é advérbio de lugar e vem sempre introduzido por preposição. Parte posterior. Ex. Seguir em frente, sem olhar para trás.
- Traz – com “z”, terceira pessoa do verbo trazer. Ex. O dólar furado! Esse filme me traz lembranças da juventude!

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ESSE SENTIMENTO CHAMADO AMOR


Na escola aprendemos que o amor é um sentimento abstrato, que não podemos pegar, apalpar, só sentir, vivenciar. A palavra amor tem sua origem no latim, amor, tal como conhecemos, e na língua portuguesa assume muitos outros significados, podendo ser um sinal de: compaixão, afeição, atração física que pode convergir em paixão ou um bem querer. Também ganha o significado de misericórdia, desejo sexual. Também pode ser entendido como no sentido familiar, amor de pai, amor de mãe, entre irmãos. Amor em latim tem mais duas variações que recebem o mesmo significado, dilectio e charitas. Uma palavra tão pequenina, mas tão rica e com tantos desdobramentos, é isso que ele significa, uma amplitude maior do que não podemos mensurar.
Os gregos também tinham palavras para definir amor: Eros, o amor expresso em uma forma física; Pragma, aquele que procura o lado prático da coisa, simbolizado por aquela pessoa que só entra em um relacionamento se tiver certeza que vai conseguir algum objetivo prático; Philia, cujo significado é generosidade, altruísmo, o contrário de pragma, aquele que pensa antes no outro.
Robert Stenberg (1998), psicólogo norte-americano, formulou uma teoria triangular do amor, a qual engloba três componentes distintos: a intimidade, a paixão e o compromisso. No que toca à intimidade, de caráter mais emocional, estamos diante de uma relação de confiança mútua que inclui a proteção e a necessidade de estarmos perto do outro. É através da intimidade que duas pessoas compartilham as suas experiências pessoais e o que mais íntimo há de si. A paixão, que se baseia essencialmente na atração sexual, envolve um sentimento irreprimível de estar com o outro. Por sua vez, o compromisso é a expectativa de que o relacionamento dure para sempre, numa intenção de comprometimento mútuo.
Na Psicologia, o amor é definido como sendo não simplesmente o gostar em maior quantidade, mas sim um estado psicológico qualitativamente diferente. Isto porque, ao contrário do gostar, o amor inclui elementos de paixão, proximidade, fascinação, exclusividade, desejo sexual e uma preocupação intensa.
Mais tarde, professores de psicologia da Texas Tech University Susan Hendrick e Clyde Hendrick criaram a Escala de Atitudes Amorosas, a partir dos seis tipos de amor classificados por Alan John Lee os pesquisadores observaram as relações interpessoais correlacionadas.
Ágape: o altruísmo em forma de amor, esse é verdadeiramente espiritual, sem necessidade de ser retribuído, existe para ajudar o próximo.
Psique: um sentimento superior, quase espiritual, fundamentado na mente e nos sentimentos filosóficos.
Ludus: um jogo, jogo onde só pode haver um vencedor ou que brinca com os sentimentos da pessoa amada.
Eros: o mais próximo do que conhecemos por paixão, fundamentado na beleza física, nas aparências.
Storge: o amor que surge com o tempo, muitas vezes se inicia por uma amizade que vai amadurecendo, com sentimentos e gostos semelhantes.
Pragma: um amor mais egoísta, pragmático que surge geralmente com um objetivo, com uma necessidade que beneficia apenas uma pessoa.
Mania: onde a emoção fala mais forte, muito instável e se aproxima do sentimento de paixão que pode evoluir para um ciúme doentio e sentimento de posse.
Psicologismos à parte, o que será, entre nós, sabedores do senso-comum, o amor? Será uma mistura entre loucura e paixão, sentimentos que centralizam o nosso pensamento única e exclusivamente na pessoa que amamos? Ou será um sentimento de desejo incontrolável que nos torna incessantemente ansiosos por estar com o outro, numa troca recíproca de carinho, afeto, confidências, palavras e olhares? De fato, o amor pode ser uma conjugação de todos estes aspectos, em que nenhum é dispensável, mas todos são imprescindíveis.
Numa tentativa de simplificar a definição de Amor, os psicólogos sociais recorreram à definição de seis diferentes formas de amar. São elas seis: 1) o amor romântico - envolve paixão, unidade e atração sexual mais usual na adolescência; 2) o amor possessivo - determinado pelo ciúme, provocando emoções extremas; 3) o cooperativo - nasce de uma amizade anterior, sendo alimentado por hábitos e interesses comuns; 4) o amor pragmático - característico de pessoas ensinadas a reprimir os seus sentimentos, o mais possível, sendo estas relações desprovidas de qualquer manifestação de carinho; 5) o lúdico – baseia-se na conquista e na procura de emoções passageiras; 6) o amor altruísta - praticado por pessoas dispostas a anular-se perante o outro, tendendo a "isolar-se num mundo onde, na sua imaginação, só cabem os dois ainda que o outro pense e atue exatamente ao contrário".
Há quem defenda que o amor é uma história construída ao longo da vida que, no correr do tempo, transpõe a mera atração física, passando para uma preocupação com o bem-estar do outro para o seu próprio bem-estar. Manifesta-se numa influência mútua, no qual a (in) felicidade de um causa a (in) felicidade do outro. A paixão e o desejo tendem a não ser tão intensos, fortalecendo-se antes a cumplicidade, a intimidade e o companheirismo.
Vejo, por meio de tantas leituras, que nenhum amor é eterno. Isso significa que se Shakespeare, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Camões, não fizeram poemas com juras eternas, nem amores eternos, quem criou essa coisa de “para sempre” fomos nós humanos. Nenhum amor é eterno, por isso mesmo a pessoa tem que aproveitar todos como se fossem, porque cada amor é único, tem que ser vivido da forma mais intensa possível, todos os dias tem que ser guardado na memória como um sentimento sublime.

DICAS DE GRAMÁTICA
Uso de “MAU” ou “MAL”
MAU é o oposto de “bom”, como no exemplo: “Eu sou mau. Vou para o inferno”
MAL é o oposto de “bem”, como no exemplo: “Ele fala muito mal“. Ele não fala bem.


A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.