sábado, 20 de agosto de 2016

BREVE VIAGEM EM “UM PARAÌSO PERDIDO” DE EUCLIDES DA CUNHA



É incontestável verdade que através do livro “Um Paraíso Perdido” Euclides da Cunha cumpriu a fantástica missão de revelar a Amazônia à consciência nacional, enquanto esteta da linguagem, ensaísta e humanista. É uma obra merecedora de múltiplas leituras e viagens para melhor compreensão do ser humano amazônico e sua interação com a natureza. Aqui é um mundo diferente.
No contexto em que escreveu a valiosa obra, (1904-1909), Euclides da Cunha vivia um momento de inquietação pessoal: novos parâmetros sociais, econômicos, políticos e culturais eram impostos ao cotidiano das pessoas da época. E, embora seja uma obra escrita no século XIX, ela me parece muito atual, porquanto é inconteste em três áreas: a Geografia, a História e a Sociologia da Amazônia. Sobre essas áreas há muito para escrever, dizer, construir. E, embora a obra tenha sido escrita no contexto das transformações materiais e espirituais da Belle Époque Amazônica, a viagem euclidiana ainda é bastante atual. Sinaliza, na releitura, que a Amazônia continua a ser um grande desafio para o mundo.  Pela magnitude de “Um Paraíso Pedido” , Euclides foi notado como grande conhecedor da Amazônia  e cumpriu a missão de revelar a Amazônia à consciência nacional, em face aos novos parâmetros sociais, econômicos, políticos e culturais da época.
Em “Um Paraíso Perdido”, aparece o “seringueiro”, o “cauchero”, o “Judas-Asvero” entre outras. São figuras humanas que não combinam com a modernidade, ainda que resistam aos tempos modernos. São obstáculos à civilização do país percebidos pela sensibilidade do escritor que demonstra um desencantamento do mundo, no sentido weberiano do termo. Esse desencantamento reflexo dos paradoxos da modernidade que não alcança todas as pessoas, as desigualdades sociais, o desconhecido mundo-natureza ao visitante estrangeiro.
“Um Paraíso Perdido” é, também, uma obra que tenta desconstruir mitos acerca da região. Um deles era a crença no clima inóspito, descrito por cronistas e viajantes, como determinante inclusive para o caráter perturbador das pessoas da região. Euclides da Cunha reconheceu as dificuldades que o estrangeiro tinha em se aclimatar, mas admitiu não ser o clima o grande responsável pela baixa densidade demográfica da região e sim a ausência de uma via de transporte e comunicação por terra, visto que além de perigosa, era muito dispendiosa a navegação pelos rios da região, daí a necessidade de se construir a Transacreana (obra que perdura há dois séculos e ainda não reflete as construções deste século XXI).
Vejamos, então, que a visão de Euclides é atualíssima. A Amazônia enfrenta as mesmas dificuldades de dois séculos atrás, com mais agravantes: os rios não são navegáveis como outrora. Também, as estradas e rodovias não atendem às necessidades dos habitantes regionais e muitas cidades, construídas após “Um paraíso pedido”, permanecem, como uma saga, perdidas no tempo, massacradas pelo assombroso atraso de vias de comunicação e transporte. Mesmo a centenária Capital do Acre, Rio Branco, não possui voos de empresas aéreas do período diurno, o aeroporto e um verdadeiro caos, as passagens caras e cansativas. Temos os horários mais temerários ao bem-estar da vida humana.
Outro aspecto a considerar, em “Um Paraíso Perdido”, é a natureza como um dos elementos centrais na narrativa. Ela aparece como opositora do ser humano. É ela quem dita o significado e o avanço da civilização na Amazônia.  De fato a natureza é detentora da qualidade de vida regional. Hoje, mais do que nunca, a natureza dá respostas. As pessoas estão destruindo a flora e fauna, as florestas, os rios e, assim, tornando inóspita (como antes) a vida na Amazônia. Muito bom reler “Um Paraíso Perdido”. A compreensão da vida regional implica em entender o binômio “civilização-natureza”.
Percebe-se em “Um Paraíso Perdido” que Euclides via, na sua leitura amazônica, uma natureza imperfeita e instável, igualmente um “gigante adormecido ou recalcado”. (Hoje se rebela com enchentes e secas) Portanto, a ideia euclidiana de natureza está permeada na fronteira móvel e plástica entre a “primeira” e a “segunda natureza” idealizadas por Cícero (apud. NAXARA, 2001, p. 27/28): a “primeira natureza” consiste na natureza selvagem e indócil, ela é a dona de si mesma e da História. A “segunda natureza” consiste na natureza já trabalhada pelas mãos do homem, mas ainda não domada completamente.
Percebe-se, na obra de Euclides da Cunha, o seu desejo de fazer da natureza amazônica a “terceira natureza”; representação cunhada, ainda no Renascimento, e que serviu para designar a natureza totalmente domesticada pelo ser humano e, também, submetida as suas intervenções essencialmente motivadas por valores estéticos, éticos e morais. Essa é a utopia da obra euclidiana, visto que, a verticalidade, enquanto elemento do discurso civilizador era completamente inexistente na região, sendo, portanto a horizontalidade que dominava a paisagem da Amazônia. Aí reside o binômio “civilização-natureza.”
É certo que muito necessita ser feito. A Amazônia tem sido olhada como um problema para o mundo. No entanto ela deve ser vista como solução. Há, aqui, uma natureza rica em espécies animais e vegetais. Um subsolo desconhecido, enfim, um mundo a ser desbravado e um povo a ser compreendido, em suas peculiaridades, e necessitado, ainda, da graça de alcançar as benesses da vida moderna deste século XXI.
 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O BEM-ESTAR DA FELICIDADE NO MUNDO PÓS-MODERNO





Nós, seres humanos, sempre lutamos na vida para alcançar um bem supremo que é a FELICIDADE. Mas poucas pessoas sabem dizer o que seja essa tão sonhada felicidade. É ter saúde, ter dinheiro, ter bens materiais? Afinal, o que é essa tal Felicidade? O certo é que a temática da felicidade é pouco estudada, cientificamente, existindo por diversas perspectivas socioculturais, desde a os filósofos antigos como Sócrates, Aristóteles, Platão, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche.
Uma criança não se preocupa, ainda, com a felicidade, ela quer ter pais, comer, brincar,  amigos. O futuro não está presente na mente, ela vive o dia a dia, rotineiramente. Mas à medida que cresce os objetivos a alcançar na vida começam a aflorar. Aí começa a preocupação com  uma vida feliz, a busca e a manutenção  da felicidade.
Indaga-se, então, o que vem a ser a felicidade, e quais sensações provoca em nós humanos? Numa abordagem possível, na brevidade deste texto, para se discutir a ideia de Felicidade, é que esta pode ser entendida como plenitude,  que, por sua vez, pode ser correlacionada a uma dimensão ética do viver. Essa dimensão está pautada em valores éticos, pessoais e subjetivos e menos ligada à satisfação imediata, ao consumismo/materialismo.
Esses valores éticos dos quais se fala, devem ser entendidos como sinais de maturidade psicológica. Uma pessoa madura, psicologicamente, é capaz de estabelecer relações nas quais há influência mútua, sem perda da identidade. É, ainda, capaz de  reconhecer-se como uma pessoa individualizada, em harmonia com seus próprios desejos, anseios, ambições, potencialidades e objetivos.
Nessa perspectiva, a felicidade não está relacionada a bens materiais, mas a valores amadurecidos e enraizados nas pessoas. E cada ser humano possui um podo peculiar de olhar e sentir a vida.Aquilo que é bom e agradável para uns pode não ser para outros.E o mundo pós-moderno mudou, significativamente, o comportamento das pessoas.
Esse mundo pós-moderno é identificado, em muitos aspectos, por um crescente desapego nas relações interpessoais, individualismo exagerado, cultura do hedonismo e do consumismo e um desinteresse pelos fenômenos sociais, o que demarcam as subjetividades em uma realidade do consumo. Estas subjetividades, reeducadas pela velocidade das mudanças e a sobrecarga de informações do mundo pós-moderno, apresentam uma instabilidade dos desejos e uma insegurança que influem numa busca, em um consumo constante, como forma de sustentação para proporcionar felicidade.
Então, a felicidade, neste contexto, torna-se um dever, onde diversos objetos são tomados como possibilidade para alcançá-la, perpetuando um ideal ilusório de completude, numa felicidade mascarada, ou seja, ilusória, forjada em uma ideia de pronta e infinita, ressignificando valores como o amor, fé e amizade.
Frente a tantos ideais novos, diversos tipos de objetos são ofertados como sendo aqueles que proporcionarão a felicidade para a atual sociedade consumista, sendo estes objetos um meio transitório de minimizar o desprazer. As pessoas querem preencher o tempo, as angústias, a ansiedade e as carências com coisas materiais ou momentos prazerosos.
O prazer é, sem dúvida, a essência básica da felicidade advinda da realização de desejos e da alegria experimentada. Contudo, nem sempre quando uma pessoa experimenta prazer, através de algum objeto que investiu, sente um bem-estar, podendo esse sucesso ser algo penoso, porém mantido para que assim essa pessoa possa estar inscrita, socialmente, e consumindo o que os demais consomem. É uma felicidade aparente e transitória, nos momentos em que um desejo é satisfeito.
O desejo, então satisfeito, gera um contentamento, uma sensação de bem-estar. E se a pessoa está contente com aquilo que realizou, diz-se então que está alegre, ou seja, manifesta contentamento, júbilo. E esta alegria é  um tipo de ação feliz, embora não seja a felicidade. Apesar de haver uma relação entre elas, “a felicidade e a alegria, não são a mesma coisa”: A alegria é uma expressão, uma felicidade cortada, uma parte em relação com o real.
Sócrates acreditava que uma pessoa virtuosa é feliz, compreendendo que não sofreria com os males da vida nem com a morte. Aristóteles coloca a felicidade como o fim último dos atos humanos, e que para se chegar a ela é necessário viver segundo a razão. Toda ação, segundo ele, “tem como objetivo um bem qualquer, por isto tudo tende ao bem”, havendo “coisas boas em si mesmas e coisas úteis que dependem de algo mais”.
Para Freud (1996), a felicidade consiste na satisfação casual de grandes necessidades, possível, sob uma forma transitória e episódica, que não exclui da vida do sujeito às adversidades, pelo contrário, reserva-lhe uma miséria comum e cotidiana, característica da condição humana que nada tem a ver com um propósito divino.
A perspectiva de Freud sobre a Felicidade parte de sua leitura, na juventude e na maturidade de filósofos como Platão e Aristóteles, Michel de Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche. De certa forma todos esses filósofos atribuíam à vida desafios de diversas ordens, que confrontavam o ser humano com a frustração, sofrimento e decepção, a partir do momento do nascimento, deixando cicatrizes que são impossíveis de apagar.
Finaliza-se o texto com o pensamento do filósofo grego Epícuro, dizendo que a verdadeira felicidade, está pautada no prazer, ou seja, na  “ausência de dor no corpo (aponia) e a falta de perturbação da alma (ataraxia)”, e não ao prazer desregrado que alguns difundem em detrimento de uma razão que aprofunda as motivações e escolhas, rejeitando futilidades e prazeres fugazes que apenas trariam dores e perturbações na vida das pessoas. Importa, na vida, o bem-estar que pode ser resumido em felicidade!

DICAS DE GRAMÁTICA
São uma hora da tarde ou É uma hora da tarde, professora?
- Não se pode esquecer uma regra básica:  o verbo deve concordar com as horas, sendo assim, o correto é dizer é uma hora da tarde, assim como é correto dizer são duas horas da tarde, são três horas da tarde e assim por diante.
São meio-dia ou É meio-dia?
- O verbo "ser" neste caso concorda com "meio", metade de uma unidade.A construção correta é meio-dia.

terça-feira, 12 de julho de 2016

AUSÊNCIA DE VIRTUDES NA POLÍTICA BRASILEIRA







Vivemos um momento paradoxal no Brasil, onde valores são pisoteados e as virtudes soterradas em lamaçais de corrupção, que se alastram por todos os lados, desde a Petrobras aos correios, aos empréstimos consignados dos aposentados (Coitados!). Uma ladroagem escancarada, sem limites. Diante disso tudo, havemos de perguntar: onde estão as virtudes humanas?
Para quem não sabe, a Virtude é uma qualidade moral, um atributo positivo de um indivíduo. A Virtude é a disposição de um indivíduo de praticar o bem, não é apenas uma característica, trata-se de uma verdadeira inclinação. Virtudes são todos os hábitos constantes que levam o ser humano para o caminho do bem.
Virtude é um conceito que remete para a conduta do ser humano, quando existe uma adaptação perfeita entre os princípios morais e a vontade humana. Há virtudes intelectuais, que são ligadas à inteligência e há virtudes morais, que são relacionadas com o bem. A virtude intelectual consiste na capacidade de aprender no diálogo e na reflexão a busca do verdadeiro conhecimento. A virtude moral, por sua vez, é a ação ou comportamento moral, um hábito considerado bom, de acordo com a ética.
Virtude foi um tema bastante abordado pelo filósofo Aristóteles, que fez a diferenciação entre virtudes intelectuais e virtudes éticas (ou morais), sendo que o estado ideal é a moderação, o que se encontra no meio do defeito e do excesso. Virtude intelectual é aquela que nasce e progride graças aos resultados da aprendizagem e da educação, e a virtude moral não é gerada em nós por natureza, é o resultado do hábito que nos torna capazes de praticar atos justos.
Para Aristóteles, não existem virtudes inatas, todas se adquirem pela repetição dos atos, que geram o costume, e esses atos, para gerarem as virtudes, não devem desviar-se nem por falta, nem por excesso, pois a virtude consiste na justa medida, longe dos dois extremos. Tudo que falta ao mundo político brasileiro.
Na visão de Aristóteles, enquanto a virtude intelectual vem, via de regra, pelo aprendizado, requerendo tempo para desenvolver-se, a virtude moral é adquirida pelo hábito. O saber pouco ou nada conta na aquisição da virtude. É necessária a ação, o hábito, pois o saber é adquirido por aprendizado, sendo compatível, portanto, com a virtude intelectual. A prática desses atos deve nos indicar o caminho da moderação. Excesso ou falta, devem ser evitados. Segundo Aristóteles, a ação virtuosa deve ser voluntária e não contemplar hesitação. O virtuoso não possui qualquer conflito moral. Tanto quer fazer o bem quanto o faz e a vida feliz é a vivida segundo a virtude. Uma conduta ou sentimento tido de forma deficiente ou excessiva torna-se um vício.
  É, pois, essa conduta deficiente (ausência de virtudes) que tem envergonhado o Brasil diante do mundo. Seria difícil exagerar quando se afirma a gravidade da situação, no país, em várias esferas. O trecho a seguir, publicado, no dia 04/07/2016, por Simon Romero, o correspondente do The New York Times, no Brasil, evidencia o nível de calamidade da situação. Diz ele:

O Brasil está enfrentando sua pior crise econômica das últimas décadas. Um enorme esquema de corrupção tem prejudicado a empresa pública petrolífera nacional. A epidemia de Zika espalha desespero ao longo da região Nordeste. E, pouco antes de hordas de estrangeiros vierem ao país para as Olimpíadas, o governo luta pela sobrevivência com quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de escândalo.

A extraordinária crise política brasileira apresenta algumas semelhanças com o caos liderado por Trump, nos EUA: um circo sui-generis, fora de controle, gerando instabilidade e libertando forças sombrias, com um resultado positivo quase impossível de se imaginar. A antes remota possibilidade de impeachment da presidenta Dilma Rousseff parece, agora, provável.
Porém, uma diferença significante em relação aos EUA é que a agitação no Brasil não se limita apenas a um político. O contrário é verdade, conforme Romero comenta: “quase todas as frentes do sistema político estão sob uma nuvem de escândalo”. O que inclui não apenas o PT, partido trabalhista de centro-esquerda da presidentA – atravessado por casos sérios de corrupção – mas também a grande maioria dos grupos políticos e econômicos de centro e de direita que agem para destruir o PT e que estão afundando, em uma quantidade ao menos igual, na criminalidade. Em outras palavras, o PT é, sim, profundamente corrupto e banhado em escândalos, mas, virtualmente, assim também são todos os grupos políticos trabalhando para minar o partido e obter o poder que foi democraticamente entregue a ele.
Diante do quadro que aqui se expõe, faltam aos políticos brasileiros as virtudes intelectuais e morais. Diria que nem nos 21 anos de ditadura militar elas foram tão escassas. É verdade que foram anos brutais e tirânicos, mas não havia essa roubalheira descontrolada. Dentre as muitas “vítimas” estava  Dilma Rousseff, então guerrilheira e assaltante de banco da esquerda democrata, presa e torturada pelo regime militar, nos anos 70, mas que hoje, aliada ao Lula, lega ao país a maior quadrilha de ladrões de nossa história. Essa dupla e seus comparas desconhecem as virtudes morais e intelectuais. E o pior de tudo, o tempo de aprenderem o que seja honestidade já passou. Agora, o aprendizado deve ser na cadeia. Grita, Brasil!

DICAS DE GRAMÁTICA

PARA MIM FAZER ou PARA EU FAZER, PROFESSORA?
- Gente, muita atenção, o’Mim’ não faz nada, é preguiçoso! Isso mesmo, mim é um pronome pessoal oblíquo, ele não pode vir antes de um verbo exercendo função de sujeito em uma oração. Sendo assim, o correto é dizer:
Para eu fazer, Para eu falar, Para eu estudar e assim por diante, com os demais verbos.
SEJE ou SEJA, ESTEJE ou ESTEJA?
- Sabemos que na modalidade oral é muito comum ouvir muita gente boa dizer “que seje eterno enquanto dure”,“esteje onde estiver”, mas na escrita, que é o lugar onde as regras devem ser respeitadas, esqueça o seje e o esteje e faça a correção gramatical: seja e esteja sempre serão as únicas opções possíveis!
A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.