sábado, 15 de setembro de 2012

TEMPO E COSTUMES MUDAM AS PALAVRAS DA LÍNGUA

 

 

Dar nome às coisas é prática tão antiga quanto à existência da vida humana sobre a Terra. E sob a visão religiosa, na bíblia, têm-se o primeiro relato a respeito do processo de atribuir nome às coisas: “Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz dia, e às trevas noite.” (Gênesis, 1:4-5). Nomear é, então, em qualquer esfera da vida, sagrada ou profana, conferir sentido às coisas. Nas relações cotidianas, vale o exemplo do ato de nomear filhos. E, aqui, a história demonstra a importância dos nomes, tanto para as pessoas quanto para as coisas.

Os nomes são, portanto, espelhos da história humana, das épocas, da evolução sociopolítico da humanidade. São espelhos de um tempo e, mutáveis que são, retratam a dinamicidade dos seres humanos sobre a terra. Assim, há nomes que servem para uma determinada época e não mais para outra. Antigamente dizia-se: cutex e não esmalte; petisqueira e não armário; encarnado e não vermelho; brilhantina e não gel; penteadeira e não cômoda ou rak; eletrola e não aparelho de som; velho e não idoso; sirigaita hoje é patricinha; o patife virou corrupto; botar o cabelo no Toni passou para permanente e hoje baby liss; radiola passou a toca-disco, hoje Mp3; bom agora é massa; moco virou surdo; mangar agora é rir do outro; fuxico virou fofoca; binga agora é coisa sem valor; estrato é perfume; merenda agora é lanche; capote agora é sobretudo; rouge agora é blanche; banzé virou confusão; broto virou pão e agora é gato; garota passou para mina; na crista da onda virou sucesso; deu tilt agora é defeito; marmota é gosto duvidoso; coqueluche agora é grito da moda; fervilhar de gente é lotado de gente; manequim é top model; datilografar é digitar. São muitas mudanças. E, se tem alguém culpado pelo sumiço de certas expressões, esse alguém é o próprio tempo, a moda, a tecnologia.

Por outro lado, vê-se que quando uma coisa está desgastada, ou foi criada por administração anterior, nada melhor que lhe mudar o nome. Foi o Brizola quem criou aquelas escolas de tempo integral, chamadas de CIEPs. Depois veio o Collor e deu-lhes o nome de CAICs. Assim, pelo Brasil afora, foram surgindo CAIAQUEs, CIATEs e sei lá mais o quê. Do mesmo modo, no Acre, cidadania virou florestania, isso porque os cidadãos estão na floresta. A língua é assim, cria, inventa, transforma, reforma.

Mas as mudanças não se esgotam nos poucos exemplos. Na educação, tinha-se o Colegial que virou Segundo Grau e agora é Ensino Médio. Aluno virou educando. Educação virou processo de ensino-aprendizagem. Professor passou a facilitador; nas empresas, o funcionário virou colaborador; nas ciências humanas muitas teorias fazem sucesso só mudando os nomes das noções.

Ainda, há nomes que mudam porque não são “corretos”. Então, vem a chamada denominação ‘politicamente correta’, como por exemplo: o negro agora é cidadão afro-americano; o preto é um afro-descendente; bombardeio virou operação de suporte aéreo; homem que transporta bomba, o famoso homem-bomba, agora é homem-suicida; o ladrão, o bandido a serviço de outrem é o homem-laranja; os americanos dos Estados Unidos da América são, agora, estadunidenses, embora não exista um país cujos moradores o chamam pelo nome de Estados Unidos. A guerra contra o islamismo agora é guerra contra o terrorismo. Terrorismo não é o nome de um inimigo, mas de uma de suas formas de ação. A adoção da palavra tem dois motivos: primeiro, por covardia não querem dizer "islamismo", nem "marxismo", para não parecer "nostálgicos da Guerra Fria", nem muito menos "islamomarxismo" ou "marxo-islamismo".

Os exemplos não terminam nunca. Aqui, entre nós, não faltam nomes politicamente corretos. Um exemplo literário: anos atrás a mulher que fazia poemas era chamada de poetisa. Era normal chamar a Cecília Meireles de poetisa. Depois apareceu alguém para achar que a palavra poetisa carrega um não sei quê de machismo. Agora o politicamente correto é chamar a Cecília Meireles de poeta, para que fique bem caracterizado que a poesia independe do sexo do autor. No entanto, ninguém chama a Rachel de Queiroz de escritor, a Gal Costa de cantor, ou a Fernanda Montenegro de ator. Nesse caso, elas são: escritora, cantora, atriz.

Percebe-se que a denominação passa por um processo de criação à luz dos tempos, da cultura, dos costumes. E essa criação acontece com as coisas animadas e inanimadas, objetos e pessoas. Há palavras para dizer tudo quanto se pensa, sente-se, ver. Ao tempo em que surgem novas palavras outras tantas desaparecem. Em abstrato, o léxico de uma língua engloba todas as palavras, as novas e as velhas. O poder de incluir ou excluir palavras do sistema linguístico é de autonomia dos falantes, que filtram e acolhem aquilo que desejam expressar, traduzir da língua como marca de identidade sociocultural.

DICAS DE GRAMÁTICA

FORMAS DE DUPLO USO

O certo é estar em pé ou estar de pé? Tanto faz. O certo é acostumado com o barulho ou acostumado ao barulho? Tanto faz. O certo é não me compare a você ou não me compare com você? Tanto faz. O certo, afinal, é renunciar o cargo ou renunciar ao cargo? Sim, é isso mesmo, nesses casos, tanto faz.

MEGARREGRA

É muito comum acrescentar o elemento mega (grande) a outras palavras. A grande regra, neste caso, é que nunca se usa o hífen. Alguns exemplos: megafone, megacomputador, megaempresa, megaindustrial, megausina, megassismo, megapolar, megarregião e outros megas, tudo sem hífen.

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.