terça-feira, 28 de janeiro de 2014

POR QUE AS PALAVRAS MUDAM DE SENTIDO NO CORRER DO TEMPO?

 

palavras não voltam

No seu percurso histórico, as palavras adquirem novos sentidos e estabelecem novas relações semânticas umas com as outras. Às vezes, o sentido tanto se altera que pode partir, por exemplo, de um valor axiológico positivo para um valor axiológico negativo, ou vice-versa, e as conotações de caráter puramente periférico passam a ser nucleares.

Nosso objetivo neste trabalho é mostrar que as mudanças semânticas não afetam apenas diacronicamente os itens lexicais. Os fenômenos referidos acontecem também na sincronia. Vale ressaltar, como Bréal (1992), que, em determinados contextos, vale a restrição ou a ampliação de sentidos.

As alterações semânticas decorrem de múltiplos fatores, estudados exaustivamente por Bréal (1992), como a restrição e a ampliação de sentido, a metáfora, o espessamento de sentido, a polissemia. Bréal recusava-se a apresentar a analogia como uma causa e muito menos como uma força cega. Em consonância com Bréal, muito bem pondera Faraco (1992, p. 45), ao afirmar que,

[...] nenhuma mudança é por si só necessária: ela encontra seu caldo de possibilidade na pluralidade de formas linguísticas existentes no social e vai ocorrer ou não na dependência de um intricado (e ainda pouco esclarecido) processo de preferências sociais contingentes.

Vejam-se, nesse breve texto, a ampliação ou mudança de sentido de três palavras: Destino, Fortuna e Sina. São três palavras que evoluíram de sentido no curso do tempo. É claro que existem outras tantas, mas, aqui, abordam-se essas três para mostrar como as palavras evoluem e mudam de sentido. Isso é um fenômeno semântico que acontece em todas as línguas faladas.

A palavra “destino” deriva do verbo destinare. Contém dois elementos: ‘de’, que significa movimento a partir de um certo ponto, stinare, que significa ‘fixar’. Destinare significa partir de um ponto fixo, da raiz stano ‘resistir’. O significado original tem o traço de volitividade: ‘prender’, ‘segurar’, ‘firmar’, ‘estar fixado’. Já se delineava, através do último sentido, aquele que viria a ser o significado em vernáculo. ‘Destinar’ é um curso a partir de um ponto. Na linguagem do arco e flecha, ‘destinar’ significava ‘fazer pontaria’ e ‘destino’ se referia ao alvo. Portanto, ‘destino’ primeiro significou ‘meta’ e depois se transformou em ‘fado’, ou seja, uma força imutável que determina o que sucederá no futuro.

Como se nota, através de contínuas migrações de meio social e uso, o significado original, por metáfora, passou a significar ‘sucessão de fatos que podem ou não ocorrer’, como nesses exemplos: (... ) mas se o ‘destino’ insistir em nos separar/danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas (Chico Buarque, Dueto). A gente quer ter voz ativa/no nosso ‘destino’ mandar/mas eis que chega a roda viva/e carrega o ‘destino’ pra lá (Chico Buarque, Roda Vida). (39) nunca acreditei na ilusão de ter você pra mim/Me atormenta a previsão do nosso ‘destino’ (Los Hermanos, Anna Júlia).

A palavra“fortuna”, na origem, designava a ‘sorte (boa ou má)’. Aurélio registra diversas acepções de ‘fortuna’: ‘casualidade, destino, ventura’. No entanto, se especializou com conotação axiológica positiva, como provam os derivados. Segundo Faria (1994), especializou-se como ‘boa sorte’ ainda em latim, nas cartas de Cícero e daí, no plural, significava ‘dons da fortuna, riqueza’. Tem-se, na literatura, os exemplos: Com aqueles simples conhecimentos - ler, escrever e contar - entrou na vida, e não foram necessários outros para que lhe sorrisse a ‘fortuna’ (Artur Azevedo, Na Horta); Disseram que está no Norte/Toda ‘fortuna’ e sorte/que o mundo tem a oferecer/Para acabar de uma vez/com toda minha pobreza (Kid Abelha, Cantar em Inglês). Mesmo nos derivados ‘infortúnio’ e ‘afortunado’, a raiz ‘fortuna’ tem conotação positiva. São exemplos: Foram meses de ‘infortúnio’/Desse mal quase faleço (Beth Carvalho, Novo Endereço); Não faltavam ao soldado feitos que lhe aumentassem o prestígio de pessoa bem conformada, sem vícios que lhe dessem o realce de um ‘afortunado’ (Domingos Olympio, Luzia Homem); Com seu nariz furando o vento/Com um certo ar de autoridade/Eu fico louco, louco de saudade/Sou um cara ‘afortunado’/perto de ti eu sou um poço de sensibilidade (Ira! Poço de Sensibilidade).

A palavra ‘Sina’, cujo sentido original era ‘sinais’, advém do léxico do Zodíaco. Deriva de um plural signa relacionado ao singular signum. Etimologicamente, ‘signa’ é uma marca: vem do indo-europeu secnos,ligado a secare ‘cortar, distinguir’. Para Houaiss (2001), significa: “fatalidade a que supostamente tudo no mundo está sujeito; destino, sorte, fado”. É esse o sentido no trecho das músicas: “mas como todos têm a sua ‘sina’ um a morte não levou (Milionário e José Rico, Sonhos de umcaminheiro); ser poeta, cantador, vaqueiro, aboiador é a ‘sina’ do sertanejo (Flávio José, Sina do Sertanejo); e lembro dela ainda uma menina/subiu pra mente, ela virou minha ‘sina’ (Charlie Brown, Sino Dourado).Registre-se, ainda, um composto ‘malsinado’ em que figura o valor não marcado de ‘sina’, apesar de o composto ser negativamente marcado.

Percebe-se, nesse breve texto, que a inteligência humana possui uma capacidade indescritível para criar, substituir, alterar, transformar sentido de palavras, mesmo sem conhecer a origem delas. Assim, as mudanças na linguagem são instrumentos de civilização e tais mudanças se devem à mediação da vontade das pessoas em relação à vida, ao mundo, aos objetos.

DICAS DE GRAMÁTICA

BEM-VINDA E BENVINDA?

- Certamente que a dona Benvinda será sempre bem-vinda. Sabe por quê? Ora, porque “bem-vinda”, expressão grafada sempre com hífen, mesmo depois do Acordo Ortográfico, é uma palavra formada por justaposição, cujo sentido se atém a “bem acolhido (a)”. Já “Benvinda ou Benvindo”, além de representar um substantivo próprio, é também uma palavra formada por aglutinação.     

A SUJEIRA IMPRÉGNA OU IMPREGUÍNA?

- Um aspecto a que devemos nos ater é que o “g”, presente na palavra em questão, é mudo (sem som fonético). Assim sendo, em decorrência desse notável aspecto, a forma correta de pronunciá-la é impregna. (A presença do acento se deve somente para uma melhor identificação da tonicidade).

HISTÓRIA OU ESTÓRIA?

- “História” se refere a acontecimentos reais, baseados em documentos ou testemunhos. Enquanto que “estória” diz respeito a narrativas imaginárias, contos, lendas, fábulas, entre outras.
Contudo, apesar de tais diferenças, percebe-se que a forma com a qual comumente nos deparamos é “história”, relativa aos dois casos. Portanto, nada que desabone o uso desta com o sentido de contos, lendas

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

RENOVAR-SE É REVITALIZAR A VIDA

 

água

 

Luisa Galvão Lessa colunaletras@yahoo.com.br

E assim como no dicionário, acredita-se que renovar é trazer para si novas expectativas, novas visões, preencher com o novo as lacunas que estão abertas nas nossas vidas ou que estão deixando a desejar.  Sabe-se que a atitude de renovar algo que não está dando muito certo em nossas vidas é algo que somente a própria pessoa pode fazer, com coragem, determinação, sinceridade, persistência.

Quando alguém decide renovar sua vida, seja lá por qual motivo for, aparece uma força interior que impulsiona e mostra o caminho a seguir. Essa é a essência da renovação agindo sobre a pessoa que deseja mudar, melhorar em tudo. É necessário ter vontade, ativar as energias, trazer os sonhos para a realidade, renovar ideias, planos, projetos, desejos, moldar o pensamento para as novas metas.

Renovar-se é uma espécie de magia, surge na mente e a pessoa tem que abraçar-se a ela, contagiar-se pelo espírito de mudanças, das ideias novas dos caminhos a seguir. Esse rico manancial do mundo das ideias é infinito nas suas possibilidades. É suficiente a pessoa estar em sintonia para essa força essencial que todos têm na vida. Para uns adormecida, para outros que brota de modo inesperado, por uma razão qualquer. Importante é sentir e agir!

Assim, quando nos questionamos sobre nossas vivências, é possível perceber se estamos vivendo nossas experiências de maneira favorável, se estamos evoluindo nas direções esperadas, desenvolvendo nossas capacidades e gerando situações positivas para a efetivação das almejadas conquistas, ou se ainda estamos parados girando em falso, percebendo que não se está indo a lugar nenhum. E, se for assim, é hora de reconhecer e permitir que o fluxo da essência da renovação se manifeste dentro de nós. E se a pessoa ainda não foi tocado pela essência da renovação e das possibilidades de mudar é hora de parar, pensar, refletir sobre a vida, aquilo que tem maior valor afetivo, espiritual, emocional. É hora de se perguntar: está no caminho certo? É isso mesmo que deseja? Ninguém vai a lugar algum se não sabe aonde quer chegar, essa é uma lei universal. É preciso ter metas, dar atenção e valor às habilidades, construir, realizar, sonhar. Assim, ao usar a essência da renovação a cada momento, a pessoa despertará sempre para novas ideias que vão mover potenciais em direção aos sonhos e metas.

É fundamental movimentar a essência da vida segundo as habilidades pessoais, sempre com justiça, lealdade, pureza, visão de futuro, promovendo, desta forma, a materialização das conquistas que deverão estar de acordo com as leis universais, onde cada um pode promover a prosperidade na essência da renovação. O segredo para criar e manter uma verdadeira mudança no comportamento está em conseguir se motivar e permanecer motivado. Viver bem consigo mesmo é o princípio, meio e fim da Paz.

DICAS DE GRAMÁTICA

À TOA OU À-TOA?

É preciso entender o que antes vigorava e o que agora impera, tendo em vista as mudanças oriundas do Novo Acordo Ortográfico. Veja, pois, a explicação: À toa, denotando o sentido referente “ao acaso”, “a esmo”, “sem fazer nada”, antes já era e depois da nova reforma continua sendo grafada sem o uso do hífen, haja vista que representa uma locução adverbial de modo. Vejamos o exemplo:

Passava à toa todas as manhãs olhando para o teto.

Atestamos que indica um fator circunstancial ora relativo ao verbo passar (passava).
À-toa, antes grafado com hífen e agora descrito sem ele (à toa), refere-se a um adjetivo, cujo sentido se demarca por “inútil”, “desocupado”, “insignificante”. Observa-se o exemplo a seguir:

Não passava de um à toa, pois não demonstrava nenhum interesse em crescer, tanto pessoal como profissionalmente falando.

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Luísa Galvão Lessa – Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montréal, Canadá; Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro da Academia Brasileira de Filologia; Membro da Academia Acreana de Letras; Pesquisadora PVNS – CAPES.

A vida da gente é feita assim: um dia o elogio, no outro a crítica. A arte de analisar o trabalho de alguém é uma tarefa um pouco árdua porque mexe diretamente com o ego do receptor, seja ele leitor crítico ou não crítico. Por isso, espero que os visitantes deste blog LINGUAGEM E CULTURA tenham coerência para discordar ou não das observações que aqui sejam feitas, mas que não deixem de expressar, em hipótese alguma, seus pontos de vista, para que aproveitemos esse espaço, não como um ambiente de “alfinetadas” e “assopradas”, mas de simultâneas, inéditas e inesquecíveis trocas de experiências.